“Carryon MyWayward ImaginaryFriend”
Que tal unir seres cintilantes repletos daquela essência de pureza que rege o universo infantil com mortes impetuosas e sangue jorrado por facadas violentas? Uma receita indigesta, certo? Errado. Tão errado quanto o mito do “leite com manga”. Ao unir estes ingredientes, Supernatural desenvolve uma dinâmica interessante que lembra um bocado da natureza bipolar das animações japonesas (anime) onde em um piscar de olhos, tudo pode explodir como um foguete que converge do hilário ao caótico com uma naturalidade quase orgânica, tamanha inspiração do genial povo nipônico.
Jantar com os pais ou um chá com seu melhor amigo? Quem nunca preferiu a segunda opção? Mas seria justo ter que escolher, especialmente quando não se é dono do próprio nariz? Ou ainda, seria justo obrigar seus filhos a fazer o que não gostariam? Na dúvida, consultemos o manual de instruções! É diante deste corriqueiro fim de dia em família na casa dos Berman englobando questões aparentemente simples entre pais e filhos que iniciamos o penúltimo episódio do ano. O Pai (Scot Gibson) que só não quer perder a reserva e a Mãe (Carrie Genzel) que segue a risca o manual pode parecer pouco complacente com a filha, mas próprio jantar é uma tentativa de retira-la do quarto, conforme a declaração de Maddie (Jena Skodje) denuncia. A aparência mística de Sparkle (Everett Shea) faz parecer que a pobre criança está à mercê de uma entidade perigosa se fazendo de amigo, porém o próprio se torna vítima, logo após comprovarmos sua benevolência. Mas quem ou o que o matou, afinal?
A direção estreante de Richard Speight Jr. se mostra eficiente também no pós-prólogo, atribuindo mais mistério ao inesperado com boa dose do inusitado, culminando no surgimento de Sully, ninguém menos que o antigo amigo imaginário de Sammy(!). Esta sinopse ilustra uma mesa de apoio interessante ao enredo, que não necessariamente precisa de distinção, mas que permite a Sam usufruir de um foco extremamente necessário e que não se associasse à natureza sarcástica, irônica e por vezes cética de Dean. Há questões suficientes para fazer o enredo fluir, mas a mensagem em si era clara como o dia. Os diálogos entre Sully (Nate Torrence) e os irmãos são dinâmicos, funcionais e engraçados, vide a contagiante espontaneidade do Zanna. Inclusive estes seres míticos são mais especificamente retratados na literatura popular romena como “fadas” ou elfos responsáveis por proteger crianças perdidas na floresta como anjos da guarda, e presentear
humanos com dons como habilidades artísticas e até mesmo com a sorte. Supernatural também é cultura, pois.
Mais do que simplesmente inusitado, se disfarçar de orientadores educacionais foi inteligente, visto que Wisconsin é nada menos que o estado pioneiro no ramo educacional, tendo inclusive fundado o primeiro jardim de infância norte-americano. No mesmo segmento cultural, a prestação de serviços imobiliários é atualmente uma das principais fontes de renda do estado, o que explica o fato das residências serem tão charmosas quanto podemos constatar. A postura de Dean, apropriadamente questionando tudo, tira máximo proveito de seu papel como ponto de equilíbrio no roteiro de Jenny Klein, abrilhantado com o peculiar “toque de Midas” de Robert Berens como editor executivo. Enquanto a individualidade de Sam não foi tão profundamente retratada como a de Dean enquanto crescia, aqui se busca equilibrar esta estatística mostrando mais do quanto às provações ao lidar com uma vida solitária teve seus efeitos de forma equivalente para ambos. Quando o irmão mais velho precisa compreender por que o caçula precisaria de um amigo imaginário já que tinham um ao outro, relembra-se da infância disfuncional e desajustada dos irmãos. Tendo que se tornar adulto precocemente Dean desenvolvera um senso exorbitante de ceticismo que encobrira consideravelmente sua sensibilidade e tudo o que sempre houve de sombrio na vida dos Winchester, torna o contexto de um amigo imaginário plenamente aceitável para uma criança de 9 anos. Sempre protegido pelo irmão, Sam foi moldando sua coragem e inibindo seus medos, aumentando assim o desejo por nachos e marshmallon dos comerciais da tv, os quais Sullyrealizava.

A visita à cena do crime foi um momento à parte onde o terror que Maddie sofre é mais bem absorvido pelo espectador através da aflição causada pelo rosto da mãe coberto de sangue. Eventualmente a série consegue injetar doses consideráveis de humor negro que deixou tudo mais homogêneo no contexto sobrenatural e Speight consegue dar um tom lúdico ao mórbido, no melhor estilo trickster dos primórdios. No momento em que a Sereia Nicky (Ida Segerhagen) é atacada, vemos pela primeira vez a arma do crime que, embora tenha certo aspecto onírico e fantasioso como nas fabulas, aparenta tratar-se de um artefato sobrenatural, como uma espécie de faca de Ruby. Seria um caçador de Zannas? Jovem Sam & Sully proporcionam o momento mais tocante do episódio. Speight ilustra o senso narrativo através de recursos técnicos estéticos e progressivos que captam todos os elementos do cenário explorando diversos planos de câmera, se certificando de que sejamos transportados para dentro do quarto, agregando densidade ao momento intimista. O quarto é repleto de cores quentes e uma iluminação moderada que transforma o vazio em um recanto acolhedor. Houve todo um cuidado em atenuar sutilmente as diferenças entre ambos: O abajur aceso, a mochila no assoalho e o telefone sobre o criado-mudo estão somente no lado do quarto onde Sammy está. E neste diálogo singelo, Dylan Kingwell nos toca ainda mais com a interpretação de seu menino Sam, além de constatarmos o quão Sully se mostra sábio, utilizando apenas a verdade como instrumento guia.
Mais descomedido e extrovertido, Weems (Eduard Witzke) enfatiza a peculiar irreverencia dos Zannas com sua aura Rockabilly (como não se lembrar de Ash com esse penteado “rabinho na nuca”?). Aliás, aposto que ele foi o amigo imaginário de Ash! Não menos carismático, o figura entra em cena demonstrando genuíno equilíbrio entre o racional e o emocional, jamais soando dramático, mesmo após ser esfaqueado (impossível não rir com seu “desempenho impecável” de Air guitar?). Talvez o único porém dos Zannas sejam apenas menções acerca de seu universo que desperta uma leve sensação de superficialidade, uma vez que se trata de uma nova casta de seres nunca antes abordada na série e considerando que deverá haver milhões deles pela quantidade de pessoas que há no mundo. Talvez uma breve contextualização visual de como e porque eles interagem com as crianças poderia ter-lhes dado mais substância. Porém, assim como em 11.05-“Thin Lizzie”, é válido que os produtores procurem manter a aura folclórica. No final das contas, pincelar suas personalidades com peculiaridades cujo referencias vão de cartoons (desenhos animados) ao rock. Falando nisso, Sully parece ser uma personificação dos ursinhos carinhosos, mas com o arco-íris no suspensório ao invés da barriga, não acham?
Entretanto, pode parecer estranho que este seja o tipo de episódio que contenha um dos elementos que mais queremos respostas. Afinal, que pessoa sã falaria com seu amigo imaginário sobre Lúcifer? Mas tudo isso funciona, tanto para tornar o mais relevante o episódio, quanto para evidenciar que o nível de confidencia entre Sully e Sam ainda não foi alcançado pelos irmãos. Independentemente, qualquer outra pessoa além de Dean que possa ajudar Sam em sua jornada individual de fato merece reconhecimento. Como Billie e Lenny, Sullyé outro promissor coadjuvante que se destaca por sua natureza prodigiosa provida de um notável senso lógico para com aqueles quem protege, além de conseguir ainda encontrar meios de orientar Sam com a mesma significância que ele realizou no passado. Ele é definitivamente a coisa mais
próxima do conceito “anjo da guarda” que Sam já teve, que poderia ajudá-lo a enfrentar seu destino com Lucynovamente.
Mesmo os Zannas não sendo pessoas, diria que Reese foi longe matando e ferindo desenfreadamente para chegar a Sully. Mas o melhor de tudo é que o desfecho não foi previsível e foi bem elaborado, tal como a justificativa para a procedência da arma do crime que ainda correlacionou indiretamente Rowena ao plot, coroado com uma interpretação convincente por parte de Anja Savcic, bem como foi gratificante ver Dean vestindo a camisa da consciência equilibrada, salvando o dia com sabedoria através das palavras. Assim sendo, não poderíamos estar mais satisfeitos com um episódio que superou expectativas em todos os sentidos, entregando uma estória completa, equilibrada com detalhes que exploraram o desenvolvimento do caçula Winchester e onde Sully & Weems contribuem também para representar extensões da psique das crianças e acima de tudo, nos divertindo. Mas a pergunta que não quer calar é o que será de Sam? Compartilhe conosco sua opinião através dos comentários! O que você acha?
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